Antão - São Francisco e o Rio
 

Antão - São Francisco e o Rio

Antão de Siqueira Neto

Porque falar do Santo ou falar do rio com seu nome? No dia 04 de Outubro de 1501, uma expedição de reconhecimento descia acompanhando a costa brasileira, comandada por André Gonçalves e Américo Vespúcio; vindo desde o cabo de São Roque, chegou à foz do São Francisco.

Habitada a região pelos índios, que a chamavam de Opara, os portugueses deram o nome de São Francisco àquele rio, em homenagem ao santo que é comemorado naquele dia. Nenhum ser humano é mais pertinente, mais presente, mais simbólico que Francisco.


O santo que deu o nome a esse rio, esse poeta que viveu há aproximadamente oitocentos anos, jamais imaginou que seria uma figura simbólica e importante. Ele que reverenciou o irmão sol e a irmã lua, jamais imaginaria que todos os outros e outras, desde os humanos, até o menor peixe, estariam em risco de extinção no terceiro milênio.


Poucos conhecem o São Francisco tão bem quanto aqueles que tiram seu sustento do rio. Os pescadores conhecem cada curva, barranca e pedra do seu local de trabalho. São barranqueiros e ribeirinhos, de Iguatama a Três Marias, que contam seus problemas, sugerem soluções e pedem ajuda para a preservação do Velho Chico.


Cerrados e caatingas devastados, contaminação por agrotóxicos e trabalho escravo são um preço alto demais e impagável, na contramão do que exige a crescente consciência contemporânea sobre o futuro do planeta e da humanidade. Urge uma moratória para o Rio!


As recentes contaminações por cianobactérias alimentando gigantesca proliferação de algas nas águas do São Francisco, desde a foz do Rio das Velhas, que recebe os esgotos de Belo Horizonte, até Manga, na fronteira de Minas com Bahia, são sinais de que a destruição chegou ao limite.

O rio São Francisco caminha para o mar, irriga a terra árida e realiza um verdadeiro milagre de São Francisco: dá vida ao sertão. Alguns Olhos-d’água escondidos pela vegetação baixa e ressecada do Chapadão da Zagaia, Serra da Canastra, Minas Gerais, geram um dos maiores rios do Brasil, cerca de 640 mil quilômetros quadrados, que ocupa 8% do território brasileiro, o rio da unidade nacional.

Mais que um rio, o Velho Chico é um fato cultural, como o Velho Nilo, seu irmão africano - a medida é outra, mas o sentido é o mesmo. É vítima do desmatamento e queimadas desde a sua nascente, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, da poluição na forma de agrotóxicos, esgotos domésticos e industriais, além do desvio de água cada vez maior para projetos de irrigação mal elaborados.

A cada ano tem diminuído perigosamente o seu volume de água e a navegação já não se faz em determinados trechos e em determinadas épocas. É vítima do desprezo e da irresponsabilidade de sucessivos governantes, seja a nível federal ou estadual, insensíveis e incapazes da adoção de medidas para impedir a sua morte lenta. As derrubadas e queimadas de árvores seja na nascente ou ao longo do seu percurso, estão cada vez maiores.


As cidades ribeirinhas (mais de 150) não têm sistema de tratamento de esgoto e as indústrias idem, despejando toda sujeira no seu leito. Agricultores, uns sem escrúpulos, outros por falta de orientação usam e abusam de agrotóxicos em plantações nas margens do rio e esse veneno também é conduzido para o Velho Chico.

 

Quanto tempo mais sobreviverá o Velho Rio “das barbas brancas”, símbolo da “unidade nacional”?

Enfim, o que já é ruim pode tornar-se ainda pior. Caso se concretize a teoria de Lovelock, o semi-árido será apenas um deserto.


Devagar, ao ritmo lento, mas seguro do correr das águas densas do Velho Chico, o Povo do Rio se descobre e se levanta em sua defesa, e luta pela democratização da água, pela priorização do abastecimento humano e das economias solidárias, que respeitem as limitações e potencialidades do semi-árido. São Francisco, o Santo da Ecologia, eleito Homem do Milênio passado, é todo luz para o novo milênio.


Sob sua inspiração, debate-se na tentativa de construção de um Projeto Popular para o Rio São Francisco, que de fato lhe devolva e preserve a vida. Esperamos que não seja mais um projeto de letras e planilhas no papel, nem de muitas falas e propagandas.


“Que se forme numa rede de iniciativas pequenas, localizadas ou mais amplas, que vá desde a cata de lixo á preservação de nascentes; de assentamentos agro-extrativistas a retomadas de territórios indígenas e quilombolas; de experiências agroecológicas a beneficiamento de frutos dos cerrados e das caatingas; de grupos e festivais de arte e cultura a caravanas e romarias; de associações e fóruns a conselhos e comitês; de seminários e debates a acampamentos e ocupações”.

Publicação extraída da Folha Sertaneja – BA, de 03.11.2007.

 
 
Autor
 
Antão de Siqueira Neto